Você Não é Ninguém Ainda – Alice Caymmi

Ser um jovem artista hoje é ser múltiplo. Não necessariamente fazer muitas coisas, mas saber um pouco de tudo (e ainda se virar para descolar uma grana para pagar o estúdio de vez em quando). Mas ser um artista novo que faz parte de uma família tradicional tem outras nuances.

Como dar continuidade àquilo que você mesma não construiu? À primeira vista, você é um farsante ou um gênio de nascença. Nenhuma das duas opções é, digamos assim, agradável aos ouvidos de um jovem artista. Meu pai acaba de brincar aqui pelas minhas costas, dizendo:

— Você tem 35 dias após o lançamento do seu show para fazer sucesso! Mas voltando ao lento processo da tradição. A primeira reação, adolescente, é: “Vou contrariar tudo o que a minha família já fez!” Precipitado. Na primeira chance, a própria estrutura do seu corpo vai dizer o contrário. Se as suas mãos, o seu pescoço, os seus olhos são semelhantes aos dos seus familiares, por que sua arte não pode ser? Negar não é legal, até porque a genética é cruel nesse ponto. Mas imitar todo mundo não está com nada. Às vezes, quando você tem alguém em sua família em quem você se espelha, acaba imitando essa pessoa em momentos críticos. O jovem artista tem que ter muito cuidado.

Quando estamos acuados, recorremos às nossas referência afetivas. Mas, pense bem, seus pais, seus tios, seus avós são todos muito mais velhos do que você. Então, para que parecer um jovem idoso? Chato. E, além do mais, ninguém pediu para ser preservado.

Assim que o seu pai, ou algum outro familiar seu que seja um artista ilustre, começar a te incorporar no trabalho dele para te ensinar a trabalhar, apostando no seu talento, vão surgir perguntas. “Como é fazer parte desta família?” Não podemos ter medo desta pergunta. Não podemos achar também que sejamos tão maravilhosos assim a ponto de as pessoas perguntarem sobre a gente antes de citar alguém da família. Dá raiva, eu sei, mas você não é a Maria Bethânia.

Egotrip? Proibido! “Sabe com quem você está falando?” Sorry, querido, você não é ninguém ainda, você praticamente nasceu ontem. O que eu quero dizer com isso é: “Construa sua arte. Faça o seu trabalho.” Entende?

Acho que o nosso ego e o nosso eventual sucesso ou insucesso vêm para vingar a quantidade estratosférica de atentados e de bullying que sofremos na infância. Sem drama, mas criança odeia amiguinho ilustre. Ainda me lembro de alguns professores que faziam questão de citar meu avô nas aulas. Na hora, era lindo. No recreio, não.

Nostalgia pura não leva a nada. Tenho certeza de que se meu vô Dorival ainda estivesse neste plano astral, ficaria de saco cheio se eu ficasse cantando apenas (ó, pasmem) Dorival Caymmi. Se alguém antes de você desbravou caminhos na arte de forma a ser considerado um gênio, para que resguardar a obra de outro em vez de desbravar sozinho os horizontes atuais? Não que você seja tão grande quanto o seu parente. Aliás, você não tem que ser tão grande quanto ele. Relaxa.

Na verdade, tudo isso é balela, porque, quando eu deito minha cabeça no travesseiro à noite, só sinto uma coisa: medo. Mas desistir não é uma opção.

Alice Caymmi é cantora e compositora

Reportagem no Jornal o Globo de 23 de setembro de 2012
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