Fim do Mundo

Tendo visto a imagem na qual se lê: “Seria legal que no dia 21-12-2012, as empresas de energia elétrica apagassem todas as luzes, só pra dar um sustinho nas pessoas”. Lembrei do caso de Orson Welles em 1938. As consequências de uma peça teatral foram desastrosas.

Pra quem não conhece a história, segue…

A INVASÃO DOS MARCIANOS 

Neste texto foi mantida a grafia original
Orson Welles relata a sua desastrosa radiofonização da “Guerra de dois mundos”

Um jornalista francês obteve, não faz muito tempo, um relato pormenorizado de Orson Welles, sobre a sua famosa e extraordinaria irradiação da “Guerra de Dois Mundo” e que deu origem a acontecimentos tragicos em varias cidades norte-americanos. Essa irradiação, por outro lado, fez revelar ao mundo o genio de Welles, que mais tarde se dedicaria ao cinema, onde pôde demonstrar sua capacidade realmente grandiosa. Eis o relato:

Em outubro de 1938 Orson Welles era um cenarista muito pouco conhecido na America. Certo dia resolveu propor à direção da “Columbia Broadcasting System” uma transmissão diferente: a adaptação radiofonica da “Guerra de Dois Mundos”, de H. G. Wells. Essa irradiação foi feita às 20 horas do dia 30 de outubro daquele ano.

– “Eu julgava – disse Orson Welles ao jornalista – que somente crianças de 9 anos de idade ou debeis mentais poderiam levar a serio minhas elocubrações. Entretanto, em Nova York elas provocaram um panico inacreditavel…”  Como foi irradiada a historia  A “Guerra dos Dois Mundos” não havia sido incluida no programa daquele dia. Orson Welles teve que batalhar durante 15 dias, junto à direção da radio, para obter esse favor. Ele considerava que todo o interesse de sua transmissão dependia desse parti cular, isto é, de não figurar concerto executado pela orquestra de Ramon Raquello.”

As previsões meteorologicas foram irradiadas na hora exata. “E agora – disse o locutor – nós nos transportaremos para o “Meridian Room”, do Hotel Park Plaza, de Nova York, a fim de irradiarmos o no programa. Assim, o boletim publico da C.B.S., contendo o programa do dia, dizia apenas: 19h 45: Boletim Meteorologico; 20 h: Musica de dança; 20 h 45: Noticiario.  O truque de Welles  
Mas, depois de alguns minutos de transmissão, houve uma interrupção brusca. Algum incidente tecnico (pensaram os 50 milhões de ouvintes. A voz de um locutor desconhecido anunciou: “A C.B.S. interrompe seu programa para anunciar aos ouvintes que um meteoro de grandes dimensões caiu em Grovers Hill, no Estado de Nova Jersey, a algumas milhas de Nova York.”

O acontecimento provocou certa emoção. Mas a musica de dança recomeçou, normalmente. Pouco depois, nova interrupção. Desta vez o locutor entrevistava um professor de meteorologia sobre a origem dos meteoros.

Novo corte brusco: a C.B.S. cedia a antena a seu reporter, enviado especial a Grovers Hill. Ligeira confusão, pois ouviu-se a voz de Carl Philips. Em poucas palavras ele descreveu a cena: o meteoro jazia numa planicie imensa, que parecia ter escolhido para campo de pouso. Iluminado pelos faróis de milhares de automoveis reunidos, parecia uma locomotiva, brilhante, plantada sobre a terra. Mas subitamente – e a voz do locutor tornara-se apavorada – o enorme cilindro se abre e seres gigantescos, prolongados por tentaculos começam a sair de seu interior. A multidão concentrada ao redor, sente perpassar-lhe um calafrio. Incapaz de traduzir as impressões que se embaralham no seu cerebro, Carl Philips fala de formas que se aproximam, de atropelos. Depois a voz se perde no tumulto. Alguns segundos mais tarde ele cai, arrastando o microfone na queda, morto pela arma secreta dos seres saidos do cilindro: o raio mortal dos marcianos.

Um longo silencio sobre as ondas. Cem milhões de ouvintes largam o jornal que liam e manobram febrilmente o botão de volume de seus aparelhos. Nada. Depois de varias tentativas, ouve-se o prefixo indicativo da estação: cinco notas da C.B.S. De longe, ao piano, alguem toca o “Clair de Lune” de Debussy. Um novo silencio. Enfim, uma voz palida. Um locutor anuncia uma mensagem do general Montgomery Smith, comandante da Policia Federal de Nova Jersey:

“Uma imensa batalha está em curso, declara o general, entre invasores vindos do planeta Marte e a Policia do Estado. Os principais combates estão-se desenvolvendo em Watchung Hill.” O general acrescenta que a lei marcial fora proclamada nas regiões de Princeton e de Jannesburg.  Pormenores demasiadamente barbaros  
Um reporter desconhecido anuncia que testemunhas telefonaram imediatamente ao estudio relatando pormenores das operações em curso, e que tais detalhes são demasiadamente barbaros para serem irradiados. Há mortos. O “Clair de Lune” de Debussy, acompanhando essas noticias, é uma especie de fundo musical do fim do mundo.

São, agora, 20 h 25. Orson Welles está na Florida e ouve sua irradiação, cercado de amigos e bebendo uisque. Todos riem quando ouvem a declaração do general Smith. Mas no mesmo instante, em Nova York, os veteranos da Grande Guerra vestem apressadamente seus uniformes, abraçam suas familias e partem a fim de se colocarem a serviço do país. O Estado de Nova Jersey é tomado pela angustia: os quartéis dos bombeiros, os postos policiais, os hospitais, as salas de redação, são tomados de assalto por uma multidão super-excitada. Em Newmark, cidade mais proxima do campo de batalha, 50.000 pessoas deixam suas casas e correm, na noite, à procura de abrigos naturais. Nas igrejas os padres fazem orações. Orson Welles, na Florida, pensa que está fazendo morrer de riso todo o país. No Harlem, milhares de negros, vitimas de uma crise de histeria, abrem as janelas e se atiram na calçada. Em Pittsburgh há suicidios. Em Minneapolis uma mulher percorre as ruas, descabelada, anunciando o fim do mundo. Em Los Angeles, em Salt Lake City, em todas as cidades norte-americanas, propaga-se a noticia de que Nova York está ameaçada pelos “robots” vindos do planeta Marte. Em todos os pontos do país milhões de seres humanos preparam-se para morrer (O Instituto Gallup provará, mais tarde, que muito poucos escaparam a esta reação), sem se surpreenderem com a extraordinaria rapidez que a noticia foi difundida – apenas 18 minutos depois da queda do meteoro.

20 h 31. “Essa é a melhor passagem de minha vida” – disse Welles aos amigos que o cercavam, no apartamento, entre dois goles de uisque.

Uma proclamação do secretario de Estado do Interior:

– “Cidadãos! Não tentarei dissimular a gravidade da situação. Insisto no sentido de que todo o mundo, na atuais circunstancias, conserve o sangue frio. Cada um deve estar pronto para sacrificar sua propria vida. O objetivo desta luta tremenda que ora se trava é a supremacia da raça humana sobre a terra…”

As palavras continuam, a mesma idéia se repete sob vinte formas diferentes. A voz é meio surda, sob um fundo sonoro. Um locutor transmite, numa voz sonante, as ultimas noticias: destruição de Newmark, travessia do Hudson e avanço dos marcianos em direção a Nova York! A cidade dos arranha-céus está em perigo. Milhões de pessoas se aglomeram defronte ao estudio. As primeiras informações sobre o que se passa nas ruas, chegam à CBS. Orson Welles continua não sabendo de nada. Em Nova York pensa-se em interromper a irradiação. Chega-se a redigir, mesmo, rapidamente um projeto de comunicado, mas afinal verifica-se que sua divulgação acabará por aumentar ainda mais a confusão reinante.

Restam apenas três minutos para encerrar o programa. O diretor da estação, diante de sua mesa de escuta, tem a impressão de ter desencadeado um verdadeiro cataclisma que agora escapa completamente ao seu controle. Parar é impossivel. Corajosamente, ele dá a ordem:

– “Prossigam!”

E a irradiação prossegue:

“A invasão se completa – declara agora uma voz do outro mundo. Os marcianos, após atravessarem o Hudson, penetram agora nas ruas de Nova York. Nuvens homicidas de um gás desconhecido envolvem a cidade e penetram nos arranha-céus pelas janelas superiores. Toda resistencia organizada cessou da parte do genero humano.”

É o fim de Nova York. No microfone, a voz do locutor vai sumindo, até desaparecer. Seus pulmões, atacados pelo gás da morte, permitem-lhe apenas mais algumas palavras para descrever a agonia da cidade e a aparição triunfante dos vencedores, suas silhuetas brilhantes, metalicas. Nas calçadas abrem-se buracos. O locutor não pode mais: cai, arrastando o microfone consigo.

Silencio. Ao longe, ouve-se uma sirene de navio que provavelmente tenta singrar os mares levando milhares de refugiados. Depois ouve-se o apelo desesperado do radio de bordo, tentando pôr-se em comunicação com a terra:

– “Aqui chama 2 X 2 CQ Nova York. Aqui chama 2 X 2 CQ. Alô, alô!… Alô…”

Essa mensagem desesperada faz Orson Welles rir, mas apavora toda a America. Em Washington uma mulher enlouquece. A irradiação termina. Depois de cinco segundos de silencio, a voz de um locutor lê o seguinte texto:

– “Acabaram de ouvir a primeira parte de uma irradiação de Orson Welles, que radiofonizou a “Guerra de Dois Mundos”, do famoso escritor inglês H. G. Wells.”

Depois daquele dia, houve uma vaga de diretor na C.B.S. e uma cidadão tornou-se celebre em todo o mundo:

– Esse cidadão sou eu – diz Orson Welles sorrindo, ao jornalista francês.

Fonte: Almanaque.Folha

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