Você Não é Ninguém Ainda – Alice Caymmi

Ser um jovem artista hoje é ser múltiplo. Não necessariamente fazer muitas coisas, mas saber um pouco de tudo (e ainda se virar para descolar uma grana para pagar o estúdio de vez em quando). Mas ser um artista novo que faz parte de uma família tradicional tem outras nuances.

Como dar continuidade àquilo que você mesma não construiu? À primeira vista, você é um farsante ou um gênio de nascença. Nenhuma das duas opções é, digamos assim, agradável aos ouvidos de um jovem artista. Meu pai acaba de brincar aqui pelas minhas costas, dizendo:

— Você tem 35 dias após o lançamento do seu show para fazer sucesso! Mas voltando ao lento processo da tradição. A primeira reação, adolescente, é: “Vou contrariar tudo o que a minha família já fez!” Precipitado. Na primeira chance, a própria estrutura do seu corpo vai dizer o contrário. Se as suas mãos, o seu pescoço, os seus olhos são semelhantes aos dos seus familiares, por que sua arte não pode ser? Negar não é legal, até porque a genética é cruel nesse ponto. Mas imitar todo mundo não está com nada. Às vezes, quando você tem alguém em sua família em quem você se espelha, acaba imitando essa pessoa em momentos críticos. O jovem artista tem que ter muito cuidado.

Quando estamos acuados, recorremos às nossas referência afetivas. Mas, pense bem, seus pais, seus tios, seus avós são todos muito mais velhos do que você. Então, para que parecer um jovem idoso? Chato. E, além do mais, ninguém pediu para ser preservado.

Assim que o seu pai, ou algum outro familiar seu que seja um artista ilustre, começar a te incorporar no trabalho dele para te ensinar a trabalhar, apostando no seu talento, vão surgir perguntas. “Como é fazer parte desta família?” Não podemos ter medo desta pergunta. Não podemos achar também que sejamos tão maravilhosos assim a ponto de as pessoas perguntarem sobre a gente antes de citar alguém da família. Dá raiva, eu sei, mas você não é a Maria Bethânia.

Egotrip? Proibido! “Sabe com quem você está falando?” Sorry, querido, você não é ninguém ainda, você praticamente nasceu ontem. O que eu quero dizer com isso é: “Construa sua arte. Faça o seu trabalho.” Entende?

Acho que o nosso ego e o nosso eventual sucesso ou insucesso vêm para vingar a quantidade estratosférica de atentados e de bullying que sofremos na infância. Sem drama, mas criança odeia amiguinho ilustre. Ainda me lembro de alguns professores que faziam questão de citar meu avô nas aulas. Na hora, era lindo. No recreio, não.

Nostalgia pura não leva a nada. Tenho certeza de que se meu vô Dorival ainda estivesse neste plano astral, ficaria de saco cheio se eu ficasse cantando apenas (ó, pasmem) Dorival Caymmi. Se alguém antes de você desbravou caminhos na arte de forma a ser considerado um gênio, para que resguardar a obra de outro em vez de desbravar sozinho os horizontes atuais? Não que você seja tão grande quanto o seu parente. Aliás, você não tem que ser tão grande quanto ele. Relaxa.

Na verdade, tudo isso é balela, porque, quando eu deito minha cabeça no travesseiro à noite, só sinto uma coisa: medo. Mas desistir não é uma opção.

Alice Caymmi é cantora e compositora

Reportagem no Jornal o Globo de 23 de setembro de 2012

Jô Soares – Entrevistado

Ontem de noite eu caindo de sono ainda consegui ouvir e ser acordado por instantes pra conhecer um pouco mais dessa figura tão interessante, cômica, inteligente que é um dos gordinhos mais admirados do Brasil: Jô Soares.
Ontem ele foi o entrevistado e falou um pouco de sua vida, sensibilidade, ideias. Gostei de conhecer um pouco mais desse que é um exemplo em muitos aspectos a ser admirado.

Entrevista ao quadro “O que vi da vida” com “Jo Soares” no Fantástico de 23/09/2012

Segue um artigo da Revista Caras

O apresentador Jô Soares (74) foi o entrevistado deste domingo, 23, no quadro O Que Vi da Vida, do Fantástico, e abriu o seu coração sobre diferentes temas de sua vida.Quando o assunto foi a morte, ele foi categórico. “Medo da morte é um sentimento inútil, tenho medo de não ser produtivo. Citando o meu amigo Chico Anysio, perguntaram para ele: ‘Você tem medo de morrer?’, e ele disse: ‘Não, eu tenho pena’. Já estou firmando compromisso para daqui uns 30 anos”, afirmou ele.

Realizado com o seu programa nas noites da Globo, ele relembra o início de seu talk show, no SBT. “Quando eu tive a proposta de mudar de canal, foi a possibilidade de fazer o talk show. Fazer um programa diário foi ideia do Silvio: ‘Ou é diário ou não é. Se for só uma vez por semana não emplaca’. Intuição de tigre”.

O apresentador ainda diz que não é de sentir saudades do que passou. “Não sou saudosista nem um pouco, estou fazendo o que gosto e o que quero fazer. Nunca tive nada esquemático, era fazer, mais que pensar”. Mas, revela que é de chorar. “Sou um chorão de marca maior com coisas comoventes, com tristeza não”.

Com mais de 200 personagens em sua carreira, Jô diz que não se vê voltando a interpretar suas criações. “Não me vejo fazendo os mesmos personagens com a cara de hoje, não é mais a minha. Descobri também, sem querer, a grande vocação da minha vida, que é o programa que faço hoje, o que me dá mais alegria em fazer, me sinto vivo ali, o talk show. Ter uma pessoa que conversa bem com você é um dos prazeres mais gratificantes que existem”, comentou, completando com a criação do Capitão Gay, um de seus maiores sucessos. “Tive a ideia acordando no meio da noite, porque não tem um herói de gibi viado? Levantei da cama para escrever o quadro. Tem uma característica curiosa, poucos dos personagens tinham nome, eram mais conhecidos pelo bordão ou pelo quadro”.

Falando de sua carreira, Jô Soares diz que é vaidoso: “Eu sou muito vaidoso, claro, nunca escondi isso, qual artista não é vaidoso? Você já nasce querendo seduzir o mundo”, contou ele, que ainda falou de sua forma física. “Eu já era gordo. Gordinho é quase que preconceituoso, gordinho já deixa de ser gordo. Filho único, quando nasci, minha mãe já tinha 40 anos e tudo o que fazia já era aprovado. Pelo fato de ser gordo, já era muito exibido”.

O comunicador ainda relembra de sua infância. “As minhas lembranças da infância são a época do colégio interno, onde eu chorava muito, era uma coisa excessiva, sensibilidade quase gay. Se você não tivesse uma média de notas superiores a cinco, você ficava preso no final de semana, e eu tinha medo de passar o final de semana no colégio, eu chorava muito”, disse ele, que comentou sobre os seus estudos na Suíça. “Fui estudar na Suíça com 12 anos e voltei com 17 porque os negócios do meu pai foram por água a baixo. Lembro do meu pai chegando em casa e dizendo que amanhã já temos comida, depois de amanhã eu saio para batalhar”.

Ele também comenta o início da vida artística. “Acho que começou por acaso, como tudo. Fazer as imitações acabou me levando a lugares. Com 18 anos já tinha cargo importante e com 20 comecei nos programas da TV Rio”. Jô também falou do sucesso do programa A Família Trapo“Foi o primeiro sucesso da televisão nacional, foi de 1966 até 1970. Saí um ano antes e assinei com a Globo”.

Ídolo para muitos, Soares lista os artistas que foram marcantes em sua vida. “Tem atores como o Oscarito, que eu achava um comediante fantástico. Peter Sellers, comediante e ator fantástico, um dos cinco maiores do mundo, como o Chico Anysio também. Chaplin influenciou a vida de todo mundo, sempre me fazia rir e chorar”.

Via Caras

Amor – baseado em animação de Mauricio Bartok

O nome da animação é PERFEITO, de Mauricio Bartok. É um curta metragem bem legalzinho, que me levou a algumas reflexões imperfeitas, que servem no mínimo pra termos alguma visão sobre as coisas da vida. Segue o vídeo e logo abaixo o texto escrito sob inspiração da animação:

O que chamam de amor, é quase uma utopia – mas a gente nem sabe direito o que é uma utopia, só quando descobre que é uma coisa meio impossível é que nos damos conta de que o amor é meio assim.O amor é uma tentativa de fazermos do outro a nossa imagem e semelhança – o amor não é isso, mas queremos que seja. Queremos que o outro se conforme às nossas expectativas e anseios, sonhos e desejos mais profundos, nossas exigências egoístas, mas que parecem muito justas porque dizem respeito ao NOSSO DESEJO. Enquanto estamos nos relacionando com o desejo secreto de fazer do outro o que precisamos, muitas vezes todo o mundo ao nosso redor se desfaz, até que só nos reste mesmo o outro como possibilidade de escolha – isto é, se o outro suportar estar com a gente. Se o aceitarmos como ele realmente é… pode ser amor.

Leonardo Ladislau

Quem curte animação e gostou do trabalho de Mauricio Bartok, pode conferir clicando aqui, por mais das obras dele.

Poeminha Concreto [ou Quase]

Vivendo…

 

Olhar, ver, enxergar, observar…
Escutar, ouvir, estar atento…
Flertar, paquerar, namorar…
Pegar, ficar, sair, transar…
Fazer sexo, fazer amor…
Noivar, casar, amar…
Verbos.
Atitudes.
Palavras.
Vida.

 

Eclipse

Aos que desejam por obstáculos em meu caminho, um aviso: Já reparou na beleza de um eclipse? Todo impedimento aos meus sonhos, se não vierem de Deus por ter sonhos melhores/maiores que os meus, é questão de tempo. Saberei tirar dele a devida beleza e aprendizagem.

 

 

 

Dia do Sexo? Toma um trechinho de romance pra adoçar o dia… ou apimentar

Trecho do Romance:

Diante de tudo o que ele já tinha demonstrado, eu pensava que nossos desejos eram iguais, que não haveria problema algum. Realmente não houve; pelo contrário. Se eu soubesse que toda a solução estava nisso… A solução de meu corpo faminto era ser saciado na fome dele. Acontece que enquanto eu lhe dava migalhas e ele por pacientes gestos de amor se continha, ambos padeciam a fome que nos deixava loucos um pelo outro. Eu nunca tinha entendido até então que o ditado “Juntar a fome com a vontade de comer”, não tinha de ter necessariamente comida pra comer. Duas fomes sinceras se completam se entre ambas houver consentimento. Depois de eu ter lhe sussurrado a permissão, como quem dá as chaves de uma casa nova, ele se levantou da cama se apoiando nas duas mãos e deu um jeito de se ajeitar sobre mim. Com as chaves nas mãos ele se preparava pra entrar dentro de mim, morar em mim… Seu peso de corpo sobre o meu tinha a tensão dos corpos celestes, digo isso pensando no tanto de peso que deve ter a lua no céu, sustentada por fios invisíveis, parecendo tão leve e solta. Digo isso lembrando de olhar bem de perto os olhos dele e ver desejo, lembrando da aproximação ruidosa, som de respirar abafado, apressando, me deixando em suspense pra saber o que aconteceria, lembrando que ao sentir o rosto dele deslizando no meu indo de encontro ao travesseiro, beijando e mordiscando a minha orelha, eu vi no teto o lustre simples de sofisticado, por um fio suspensa uma armação com três luminárias em formato de flores exóticas e as luzes estavam acesas, meu Deus como eu me abria tanto, sim, eu me abria a ser vista no claro, ao invés de ter meu corpo em eclipse, sendo possuída num quarto escuro com alguma luminária voltada em seu rosto luminoso pra parede. Já que tinha de ser assim, que fosse inteiro. Que ele visse o meu corpo em forma de desejo imenso, pesado, gordo, formoso, como ele me admirava tanto. Mesmo tendo permissão pra me ter por completa eu não o senti me invadindo como esperava que acontecesse. Ou invés de um tsunami súbito a maré ia subindo disfarçada e quebrando as minhas barreiras. Castelos de areia ruíam em silêncio, ou melhor, em gemidos sutis. Foi aos poucos mesmo que me percebi afastando os joelhos das pernas deitadas na cama o corpo dele deslizando pra dentro do espaço que eu criava. A pressão da barriga dele na minha aliviou um desejo que eu tinha sem saber. A minha fofura, como ele insistia em dizer, queria a rudeza dele, os pelos de homem sobre o corpo firme e macio. A minha respiração foi mudando e me senti quente. As minhas mãos iam e vinham pelas costas largas dele, sem me arriscar o agarrar com força aranhando sua pele. Mas ele disse que esperava eu fazer isso, porque eu disse que daquela noite não passava o nos entregarmos.

Os Três Mal-Amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto

Desconstruções

A gente constrói e des-constrói as pessoas, inclusive a nós mesmos. É a conclusão a que cheguei lendo o texto que segue… Daqui a um tempo a Martha Medeiros vai se tornar uma espécie de mito, como acontece com Shakespeare,  Homero, e mais recentemente Clarice Lispector… aos quais uma porção de texto é atribuído e só quem conhece mesmo pode ter certeza de que foram eles os autores. Mérito dela por escrever bem o que nos vai ao coração.

Desconstruções

Quando a gente conhece uma pessoa, construímos uma imagem dela. Esta imagem tem a ver com o que ela é de verdade, tem a ver com as nossas expectativas e tem muito a ver com o que ela “vende” de si mesma. É pelo resultado disso tudo que nos apaixonamos. Se esta pessoa for bem parecida com a imagem que projetou em nós, desfazer-se deste amor, mais tarde, não será tão penoso. Restará a saudade, talvez uma pequena mágoa, mas nada que resista por muito tempo. No final, sobreviverão as boas lembranças. Mas se esta pessoa “inventou” um personagem e você caiu na arapuca, aí, somado à dor da separação, virá um processo mais lento e sofrido: a de desconstrução daquela pessoa que você achou que era real.

Desconstruindo Flávia, desconstruindo Gilson, desconstruindo Marcelo. Milhares de pessoas estão vivendo seus dias aparentemente numa boa, mas por dentro estão desconstruindo ilusões, tudo porque se apaixonaram por uma fraude, não por alguém autêntico. Ok, é natural que, numa aproximação, a gente “venda” mais nossas qualidades que defeitos. Ninguém vai iniciar uma história dizendo: muito prazer, eu sou arrogante, preguiçoso e cleptomaníaco. Nada disso, é a hora de fazer charme. Mas isso é no começo. Uma vez o romance engatado, aí as defesas são postas de lado e a gente mostra quem realmente é, nossas gracinhas e nossas imperfeições. Isso se formos honestos. Os desonestos do amor são aqueles que fabricam ideias e atitudes, até que um dia cansam da brincadeira, deixam cair a máscara e o outro fica ali, atônito.

Quem se apaixonou por um falsário, tem que desconstruí-lo para se desapaixonar. É um sufoco. Exige que você reconheça que foi seduzido por uma fantasia, que você é capaz de se deixar confundir, que o seu desejo de amar é mais forte do que sua astúcia. Significa encarar que alguém por quem você dedicou um sentimento nobre e verdadeiro não chegou a existir, tudo não passou de uma representação – e olha, talvez até não tenha sido por mal, pode ser que esta pessoa nem conheça a si mesma, por isso ela se inventa.

A gente resiste muito a aceitar que alguém que amamos não é, e nem nunca foi, especial. Que sorte quando a gente sabe com quem está lidando: mesmo que venha a desamá-lo um dia, tudo o que foi construído se manterá de pé

Martha Medeiros

Chove em mim (Trecho de Romance)

Acho que vou compartilhar um trechinho do meu diário. Afinal de contas o povo gosta de fuxicar a vida alheia mesmo, então vou expor um pouquinho a minha, porque a dos outros só me importa saber e guardar comigo, tenho segredos muito bem guardados, muitos inúteis, mas tudo bem.

Esse trecho conta a história de um sorriso que eu ganhei e de um beijo molhado…

Era Abril e eu disse…

Descobri que eu gosto muito da erudição dele, desse ar de quem sabe das coisas, mesmo que eu saiba que ele seja bem burrinho de vez em quando. O tanto que ele sabe das cosas da vida me faz me sentir segura, como se por detrás das coisas que ele soubesse houvesse um médico que desvendasse na flor que apanha pelos canteiros dos jardins um remédio pra momentos de tédio, um alquimista que transformasse em ouro as pedrinhas arredondadas que a gente acha na praia à beira mar, um astrônomo que medisse a distância do cosmo no brilho de meus olhos… enfim, alguém muito profundo em quem dá pra mergulhar quando preciso e seja ao mesmo tempo simples, como um gole d’água que a gente trás da caçamba quando puxa a corda de um poço.

– Olha, o riso é como um trovão antes, ou durante a chuva… Ele me disse, apontando com o dedo na página do livro que dizia assim:

Bergson escreveu: “O riso é algo que irrompe num estrondo e vai retumbando como o trovão na montanha, num eco que, no entanto, não chega ao infinito”. O sorriso, pelo contrário é silencioso como chuva mansa que cai e fertiliza a terra ou como brisa suave que acaricia e refresca o rosto. Enquanto o riso é extroversão, o sorriso desvenda delicadamente o interior de quem sorri

Ai eu olhei ele bem de perto, passei o dedo no seu rosto, descendo da testa, passando pelo nariz e dando um salto nos lábios:

– então faz chover em mim…

O Lenhador e Seu Machado (Ilustração)

Você gosta de dar com a cara na porta? Quase ninguém gosta… digo quase, porque tem gente que parece que gosta de sofrer. Eles vivem muito tempo passando pelos mesmos repetidos problemas, amargando dores emocionais ou físicas, como se não houvesse escolha. Sempre há! Muitas das vezes só nos falta o CONHECIMENTO adequado pra cada situação. Na ilustração a seguir cabe uma reflexão sobre qual seria o nosso machado…

Essa é a história de Pedro, um ótimo lenhador que chegou a uma serraria procurando emprego. O capataz deu-lhe um dia para que ele mostrasse as suas habilidades.

Pedro surpreendeu o capataz, pois era capaz de derrubar dez árvores enquanto o normal era abater duas por dia. O melhor lenhador derrubava quatro.
Diante disso, Pedro foi alvo de comentários por parte de todos, pois era o melhor lenhador que se conhecia. Foi um verdadeiro sucesso. Porém, depois de algum tempo, sua produção baixou até que passou a ser o pior de todos os lenhadores. O que estaria acontecendo? O capataz preocupado, procurando saber o que estava havendo, chamou Pedro e disse:

– No dia em que você chegou aqui derrubou dez árvores, sem demonstrar cansaço e assim continuou por algum tempo. Mas ultimamente o vejo abatido e esgotado, sua produção foi caindo e você tem derrubado apenas uma árvore por dia. O que houve?

– Não sei, respondeu Pedro. Estou trabalhando como nunca trabalhei antes: tenho me esforçado três vezes mais, sou o primeiro a ir para a mata e o último a voltar!

O capataz pensou um pouco e perguntou a Pedro:

– Pedro, nesse tempo que está aqui, quantas vezes você amolou o machado?

E Pedro, um pouco atrapalhado, respondeu:

– Nenhuma, não tive tempo.

Resultado do Sorteio do Livro

Parabéns para Olivia de Almeida!!! Foi a vencedora no sorteio do “A Ditadura da Beleza e a Revolução das Mulheres”, de Augusto Cury.

EM BREVE TEREMOS MAIS PROMOÇÕES!

Fantasmas

“É muito mais fácil matar um fantasma do que matar uma realidade.”
Virginia Woolf

‘Pai’ da Gorda – Peça de Teatro

Também gosto de teatro embora não é sempre que estou indo. Gosto da sensação de faz de conta que eu to contando a verdade e você tá acreditando em tudo que eu digo. É um pouco parecido com o ato de escrever ou mesmo ver um filme. No fundo essa nossa relação humano com as artes é um tanto de “me engana que eu gosto”. Mas faz parte viver o lúdico.

A peça da qual quero falar é O Pai. Gente, eu ainda não vi… e não foi apenas pelo fato da personagem principal ser apelidada de Gorda pelo pai [e isso não era nada carinhoso], que me chamou a atenção. Eu ouvi uma entrevista com a atriz principal [hahaha aliás é um monólogo a peça… pra mim todo monólogo é um salto no escuro, um ato extremo de coragem], e ouvi um trecho da peça… ai ai ai ai ai, que texto poderoso. Cristina Mutarelli está de parabéns pela genialidade, pela condensação de um universo inteiro dentro de uns personagens que saem pondo pra fora na voz da atriz um mundo que habita todos nós.

Me chamou a atenção no enredo da peça o clímax da personagem, que é justamente o momento no qual nós a desvendamos em palco. Ela se decide a não ser mais o que todo mundo se agradava dela. Isso tem tudo a ver com o EuGordinha. Não precisamos viver conformados com o que querem que sejamos. Podemos simplesmente ser!

PAI
Monólogo de Cristina Mutarelli – estreia no Rio de Janeiro

Com direção de Cristina Elias e Rita Elmôr, a apresentação é um monólogo-carta direcionado a figura paterna. Elmôr sobe ao palco para interpretar Alzira Pontes Pastore, uma mulher irônica, criada em uma família chefiada por um pai tirano. Cansada de lidar com suas maldades, ela decide acertar as contas com o progenitor. Depois de passar a vida fazendo de tudo para agradar a todos, dispensa a aprovação alheia para suas atitudes.
Alzira procura o pai – já moribundo – e, sem piedade, destila todo o seu rancor. Em meio ao turbilhão de emoções e sentimentos daquele encontro, ela confessa sempre ter tido medo da figura paterna. Por isso, passou a vida procurando o amor dos outros, mesmo que isso significasse sua própria anulação. Cansada de fingir ser o que não é, a personagem faz declarações exaltadas, que ganham um tom ainda mais intenso por conta da ausência física do pai no palco. O espectador acaba confuso sobre até que ponto Alzira criou para si toda aquela história para explicar seus problemas.

Midrash Centro Cultural
Tel.: (21) 2239-2222
Sábado às 21h; domingo às 20h
Espetáculo não recomendado para menores de 14 anos
Em cartaz até 03/06/2012

Como Chegar

Liberdade

Hoje eu em meio aos problemas vi uma imagem cativante… um tanto triste, mas eu acho que reparei na gaiola pendurada na árvore e vi uma liberdade possível. Lembrei de nossas possibilidades humanas, nosso poder interior dado pelo Eterno. Ele nos dotou de possibilidades. É preciso não ter medo de ser o que Ele nos fez pra ser. Escrevi um poeminha pra descontrair a criatividade

Liberdade

Eu passarinho, na solidão do ar

descobri que posso voar
sozinho.

E por mais que isso parecesse triste,
não foi… sim, foi assustador como a arma em riste
mas foi melhor do que ficar no ninho.

No ninho há conforto mas não há mudanças;
no ar, eu vejo o mundo em danças
e eu posso fazê-lo só ou contigo
se fores meus amigo
se não tiveres medo de voar.

O Hora de Clarice

Precisei compartihar, em homenagem à Mestra Clarice Lispector (a Original):

Palestra de José Miguel Wisnik – Clarice Lispector

O vídeo abaixo traz, na íntegra, a conferência de José Miguel Wisnik sobre Clarice Lispector realizada no dia 10 de dezembro de 2011, no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Nesse dia, comemorou-se a data de nascimento da escritora (1920-1977) em uma série de eventos intitulada Hora de Clarice. Ao lado de outras várias instituições, o IMS também prestou sua homenagem na ocasião. Wisnik é ensaísta, professor de literatura brasileira na USP e compositor e falou no IMS sobre importantes obras da escritora, como Laços de famíliaA legião estrangeira e A hora da estrela.

Passarinho

Amo certas poesias…

POEMINHA DO CONTRA
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

 

Mário Quintana

Deus da Minha Vida – Thalles Roberto

Deus meu,
Pai meu,
Amor meu,
Tudo, razão de tudo!
Deus meu,
Ar meu,
Farol que eu preciso,
Como eu preciso!!

Eu preciso Te sentir todo dia!
E olhar pra Tua luz pra não me perder!
Meu Senhor, Tu és a minha alegria
E eu preciso!!

Deus da minha vida
Fica comigo
Sou a Sua casa
Mora em mim
Deixa eu Te dizer o que eu preciso, Pai
Eu preciso do Senhor!!

Sorteio do livro – A Ditadura da Beleza

Sorteio de um Livro

Concorra ao sorteio do livro “A Ditadura da Beleza” de Augusto Cury. Para participar é simples. Na página inicial do Blog EuGordinha, assine para receber as atualizações, deixando seu email. Vejo como assinar aqui.

Os assinantes já cadastrados já estão concorrendo. Todas as assinaturas realizadas até o dia 10 de maio de 2012, estarão concorrendo. O sorteio será realizado no dia 15 de maio de 2012, e o ganhador(a) receberá por correio a sua edição do livro.

Boa Sorte e Beijos ^-^

Encarnação Involuntária – Clarice Lispector

Tem muita gente por ai que copia e cola frases de Clarice Lispector no facebook, no msn e afins, mas essas pessoas podem nunca ter lido . Eis aqui uma oportunidade boa, um texto que eu considero lição de vida pra quem precisa se entender melhor e o melhor ainda, entender o outro – pelo menos dentro de um limite.

O texto a seguir é de Clarice Lispector e se chama Encarnação Involuntária:

“Às vezes, quando vejo uma pessoa que nunca vi, e tenho tempo para observá-la, eu me encarno nela e assim dou um grande passo para conhecê-la. E essa intrusão numa pessoa, qualquer que seja ela, nunca termina pela sua própria auto-acusação: ao nela me encarnar, compreendo-lhe os motivos e perdôo. Preciso é prestar atenção para não me encarnar numa vida perigosa e atraente, e que por isso mesmo eu não queira o retorno a mim mesmo.

Um dia no avião…ah, meu Deus – implorei – isso não, não quero ser essa missionária!
Mas era inútil. Eu sabia que, por causa de três horas de sua presença, eu por vários dias seria missionária. A magreza e a delicadeza extremamente polida da missionária já haviam me tomado. É com curiosidade, algum deslumbramento e cansaço prévio que sucumbo à vida que vou experimentar por uns dias viver. E com alguma apreensão, do ponto de vista prático: ando agora muito ocupada demais com os meus deveres e prazeres para poder arcar com o peso dessa vida que não conheço – mas cuja tensão evangelical já começo a sentir. No avião mesmo percebo que já comecei a andar com esse passo de santa leiga: então compreendo como a missionária é paciente, como se apaga com esse passo que mal quer tocar o chão, como se pisar mais forte viesse prejudicar os outros. Agora sou pálida, sem nenhuma pintura nos lábios, tenho o rosto fino e uso aquela espécie de chapéu de missionária.
Quando eu saltar em terra provavelmente já terei esse ar de sofrimento-superado-pela-paz-de-se-ter-uma-missão. E no meu rosto estará impressa a doçura da esperança moral. Porque sobretudo me tornei toda moral. No entanto quando entrei no avião estava tão sadiamente amoral. Estava, não, estou! Grito-me eu em revolta contra os preconceitos da missionária. Inútil: toda a minha força está sendo usada para conseguir ser frágil. Finjo ler uma revista, enquanto ela lê a Bíblia.
Vamos ter uma descida curta em terra. O aeromoço distribui chicletes. Ela cora mal o rapaz se aproxima.
Em terra sou uma missionária ao vento do aeroporto, seguro minhas imaginárias saias longas e cinzas contra o despudor do vento. Entendo, entendo. Entendo-a, ah, como a entendo e ao seu pudor de existir quando está fora das horas em que cumpre sua missão. Acuso, como a missionariazinha, as saias curtas das mulheres, tentação para os homens. E, quando não entendo, é com o mesmo fanatismo depudorado dessa mulher pálida que facilmente cora à aproximação do rapaz que nos avisa que devemos prosseguir viagem.
Já sei que só daí a dias conseguirei recomeçar enfim integralmente a minha própria vida. Que, quem sabe, talvez nunca tenha sido própria, se não no momento de nascer, e o resto tenha sido encarnações. Mas não: eu sou uma pessoa. E quando o fantasma de mim mesma me toma – então é um tal encontro de alegria, uma tal festa, que a modo de dizer choramos uma no ombro da outra. Depois enxugamos as lágrimas felizes, meu fantasma se incorpora plenamente em mim, e saímos com alguma altivez por esse mundo afora.
Uma vez, também em viagem, encontrei uma prostituta perfumadíssima que fumava entrefechando os olhos e estes ao mesmo tempo olhavam fixamente um homem que já estava ficando hipnotizado. Passei imediatamente, para melhor compreender, a fumar de olhos entrefechados para o único homem ao alcance da minha visão intencionada. Mas o homem gordo que eu olhara para experimentar e ter a alma da prostituta, o gordo estava mergulhado no New York Times. E meu perfume era discreto demais.
Falhou tudo.” (Clarice Lispector)