Coração Quebrado

“Quelque chose s’était cassé dans mon moteur”
(Antoine de Saint-Exupéry, no Le Petit Prince)

Quando comecei a estudar Francês comprei uma edição original do Pequeno Príncipe para ir treinando a nova língua. Lia aos poucos, degustando o significado e a pronúncia de cada palavra. Me encantei com a citação acima, que de quando em quando volta à minha memória. Nos momentos em que meu coração me diz que eu preciso refletir sobre algo que não está bem dentro de mim e eu não consigo perceber muito bem o que é. A citação está logo no início do livro, quando o aviador conta que teve de fazer um pouso de emergência no meio do deserto do Saara, porque “alguma coisa se quebrou no seu motor”, o motor de seu avião. É quando solitário no meio do deserto ele se encontra com o principezinho viajante que o faz viajar no seu pequeno mundo e desvendar os segredos dos relacionamentos humanos.

Todos precisamos de vez em quando notar que alguma coisa “se quebrou” em nosso motor interior. Prestar atenção quando algo não vai bem pode nos poupar de dores maiores. É sempre bom parar e ver o que está fora do lugar, qual peça em nós não se encaixa bem, qual desejo não está sempre cumprido, qual obrigação não feita, ou o que está sendo feito em excesso. Não podemos pecar nem pelo excesso nem pela falta. Se estamos no deserto ou se temos um amigo no deserto, a questão é que precisamos avaliar nossos corações regularmente pra ver se é possível continuar viagem, sem o risco de morrermos por dentro, por causa de algum acidente de percurso. Afinal de contas, não somos perfeitos.

Dia Internacional do Livro Infantil

Em comemoração ao Dia Internacional do Livro Infantil, quero fazer uma indicação de leitura. O livro é o clássico, sempre campeão de vendas; O Pequeno Príncipe, do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry. O livro já teve suas versões em desenho animado  (assista aqui a um trecho), filme musical (assista aqui um trecho), mas a história original geralmente é tida como infantil, mas isso não é verdade. Uma criança que o lê consegue se entreter com a história simples e cativante, mas ela não percebe as nuances e lições de vida mais profundas que estão alí no texto. Esse livro na verdade, deveria ser indicado pras crianças-adultas que estão adormecidas dentro de nós. Uma pessoa saudável emocionalmente não deixou a criança dentro de si morrer – li/ouvi isso em algum lugar. Fica então a dica de leitura, pra uma viagem curta e proveitosa dentro de si. O relacionamento de amor do pequenino com sua rosa falante, suas amizades pelo universo afora… tudo não passa de uma metáfora sobre a condição humana o ser em si. Quem não conhece ainda, espero que goste. Quem já leu, pode reler experimentando um outro olhar…

Segue um trecho:

“As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu porém, terás estrelas como ninguém… Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto… e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!”

Declarar que ama…

Dizer eu te amo é coisa séria

Uns 20, 30 anos atrás, em geral nem os pais costumavam declarar com todas as letras o quanto amavam seus filhos. Amavam, sim. E muito! Mas não diziam. Apenas demonstravam, na maioria das vezes! Entre os casais, então, o tão esperado eu te amo costumava ser dito e repetido somente na fase da paixão, e olhe lá, com digamos, excessiva cautela.

Olhar nos olhos de alguém e dizer eu te amo costumava equivaler como selar um compromisso. A pessoa teria que, de fato, tornar-se responsável por quem cativou, como imortalizou Saint Exupery em seu maravilhoso livro O Pequeno Príncipe.

Mas como sabemos, as gerações se complementam, a cultura é dinâmica e os tempos mudam. Hoje, essa declaração chega a ser quase como um cumprimento diário, em muitos casos. Os adolescentes, então, esfuziantes que são, não se cansam de se declarar aos amigos, ficantes e namorados todo o amor que têm pra dar!

Há quem considere essa prática um abuso, sem sentido e sem consistência. Banalizaram os sentimentos, justificam-se os mais críticos e reservados. Em alguns casos, pode até ser, mas não apostaria nesta conclusão assim, tão precipitadamente.

Claro que tem gente que fala sem sequer imaginar como é que se sente e, principalmente, como é que se pratica o amor de verdade. Essas pessoas, sim, certamente estão desconsiderando a profundidade e responsabilidade que o amor pede. E quando é assim, concordo: é preciso um tantinho de pudor com o amor, porque é coisa séria!

Por outro lado, embora seja coisa séria, também acredito que deva ser coisa leve, gostosa, espontânea, fluida. E sendo assim, talvez não precisemos resistir tanto às declarações, embora devamos, sim e sempre, fazê-las de modo sincero e consciente, sabendo o que estamos dizendo.

Resumindo: é possível amar muito mesmo! E que bom que seja assim. Mas vale lembrar que uma declaração, quando feita em alto e bom som, toca o outro e gera nele uma expectativa (ou várias). O modo como você diz eu te amo pode ser compreendido de diversas formas, dependendo de quem ouve.

Portanto, mais do que ficar julgando a quantidade de vezes que as pessoas têm declarado seu amor, penso que o importante é sugerir uma reflexão: além das palavras, de que forma temos demonstrado amor? Temos sido pacientes e tolerantes com nossos amados? Temos ouvido o que eles dizem e nos interessado pelo que eles sentem? Temos nos disponibilizado para fazê-los felizes?

Imperfeitos que somos, certamente cometeremos erros, mesmo amando. Mas se nos tornarmos e nos mantivermos atentos agora, hoje, e durante o maior tempo que conseguirmos, talvez consigamos compreender que dizer eu te amo é como colocar um lindo laço sobre um presente. Muito bom! Mas o presente sempre é o que somos. E somos, fundamentalmente, o que fazemos, muito mais do que o que falamos. Tal qual, sabiamente, escreveu Ralph Waldo Emerson: O que você faz fala tão alto que não consigo escutar o que você diz.

Dra. Rosana Braga
Consultora

Fonte:

Lições do Pequeno Príncipe

Pequeno Príncipe Blog EuGordinha

Hoje me aconteceu algo que a muito não vivia, me senti feliz após o término do filme. Sabe daqueles filmes que te fazem repensar alguns pontos da vida e você passa a ver as coisas diferentes? Então esse filme tem tudo isso. Quem quiser assistir, pode pegar esse torrent.