Tristeza

Estar triste pode ser útil, se da tristeza nós tirarmos alguma lição do que não deve ser feito, ou do que deve ser feito pra evitarmos certas coisas. Estar triste pode ser útil. Outro dia li na Bíblia que poderíamos nos alegrar quando passássemos por situações difíceis, até mesmo que nos fizessem chorar (Tiago 1:2-5), porque em meio às dificuldades há um processo no qual nos transformamos em pessoas melhores… ou piores, se negligenciarmos as lições que temos de aprender.

Algumas vezes nos perguntamos assim: “O Que foi que eu fiz de errado pra estar acontecendo isso? Eu não mereço”. Nem sempre é questão de merecimento. Se a gente pegar a vida de Jesus, por exemplo, Ele não merecia ter sofrido o que sofreu e no entanto… Ele tirou uma lição daquilo tudo. Perdoar quem nos feriu é um exemplo de lição qual precisamos aprender. Durante a vida muitas pessoas vão nos entristecer com atitudes, palavras, e outras coisas do gênero. Serão vários NÍVEIS de decepção e sofrimento, pra que venhamos a nos aperfeiçoar nos vários níveis de perdão e amor… Teremos de aprender a nos perdoar quando cometemos erros. Somos imperfeitos, precisamos nos auto-perdoar também. Puxa vida, precisamos aprender tantas coisas. Curtir certas tristezas também pode ser útil. O luto é saudável, mas não deve ultrapassar certo tempo. A tristeza profunda, a depressão deve ser identificada e logo desarraigada pra que não sufoque a nossa vida.

Fica a Dica, quando a tristeza vier, se pergunte: O que eu tenho de aprender com esse momento? Preste atenção na resposta que vai surgir. Será muito útil!

Encarnação Involuntária – Clarice Lispector

Tem muita gente por ai que copia e cola frases de Clarice Lispector no facebook, no msn e afins, mas essas pessoas podem nunca ter lido . Eis aqui uma oportunidade boa, um texto que eu considero lição de vida pra quem precisa se entender melhor e o melhor ainda, entender o outro – pelo menos dentro de um limite.

O texto a seguir é de Clarice Lispector e se chama Encarnação Involuntária:

“Às vezes, quando vejo uma pessoa que nunca vi, e tenho tempo para observá-la, eu me encarno nela e assim dou um grande passo para conhecê-la. E essa intrusão numa pessoa, qualquer que seja ela, nunca termina pela sua própria auto-acusação: ao nela me encarnar, compreendo-lhe os motivos e perdôo. Preciso é prestar atenção para não me encarnar numa vida perigosa e atraente, e que por isso mesmo eu não queira o retorno a mim mesmo.

Um dia no avião…ah, meu Deus – implorei – isso não, não quero ser essa missionária!
Mas era inútil. Eu sabia que, por causa de três horas de sua presença, eu por vários dias seria missionária. A magreza e a delicadeza extremamente polida da missionária já haviam me tomado. É com curiosidade, algum deslumbramento e cansaço prévio que sucumbo à vida que vou experimentar por uns dias viver. E com alguma apreensão, do ponto de vista prático: ando agora muito ocupada demais com os meus deveres e prazeres para poder arcar com o peso dessa vida que não conheço – mas cuja tensão evangelical já começo a sentir. No avião mesmo percebo que já comecei a andar com esse passo de santa leiga: então compreendo como a missionária é paciente, como se apaga com esse passo que mal quer tocar o chão, como se pisar mais forte viesse prejudicar os outros. Agora sou pálida, sem nenhuma pintura nos lábios, tenho o rosto fino e uso aquela espécie de chapéu de missionária.
Quando eu saltar em terra provavelmente já terei esse ar de sofrimento-superado-pela-paz-de-se-ter-uma-missão. E no meu rosto estará impressa a doçura da esperança moral. Porque sobretudo me tornei toda moral. No entanto quando entrei no avião estava tão sadiamente amoral. Estava, não, estou! Grito-me eu em revolta contra os preconceitos da missionária. Inútil: toda a minha força está sendo usada para conseguir ser frágil. Finjo ler uma revista, enquanto ela lê a Bíblia.
Vamos ter uma descida curta em terra. O aeromoço distribui chicletes. Ela cora mal o rapaz se aproxima.
Em terra sou uma missionária ao vento do aeroporto, seguro minhas imaginárias saias longas e cinzas contra o despudor do vento. Entendo, entendo. Entendo-a, ah, como a entendo e ao seu pudor de existir quando está fora das horas em que cumpre sua missão. Acuso, como a missionariazinha, as saias curtas das mulheres, tentação para os homens. E, quando não entendo, é com o mesmo fanatismo depudorado dessa mulher pálida que facilmente cora à aproximação do rapaz que nos avisa que devemos prosseguir viagem.
Já sei que só daí a dias conseguirei recomeçar enfim integralmente a minha própria vida. Que, quem sabe, talvez nunca tenha sido própria, se não no momento de nascer, e o resto tenha sido encarnações. Mas não: eu sou uma pessoa. E quando o fantasma de mim mesma me toma – então é um tal encontro de alegria, uma tal festa, que a modo de dizer choramos uma no ombro da outra. Depois enxugamos as lágrimas felizes, meu fantasma se incorpora plenamente em mim, e saímos com alguma altivez por esse mundo afora.
Uma vez, também em viagem, encontrei uma prostituta perfumadíssima que fumava entrefechando os olhos e estes ao mesmo tempo olhavam fixamente um homem que já estava ficando hipnotizado. Passei imediatamente, para melhor compreender, a fumar de olhos entrefechados para o único homem ao alcance da minha visão intencionada. Mas o homem gordo que eu olhara para experimentar e ter a alma da prostituta, o gordo estava mergulhado no New York Times. E meu perfume era discreto demais.
Falhou tudo.” (Clarice Lispector)