O Hora de Clarice

Precisei compartihar, em homenagem à Mestra Clarice Lispector (a Original):

Palestra de José Miguel Wisnik – Clarice Lispector

O vídeo abaixo traz, na íntegra, a conferência de José Miguel Wisnik sobre Clarice Lispector realizada no dia 10 de dezembro de 2011, no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Nesse dia, comemorou-se a data de nascimento da escritora (1920-1977) em uma série de eventos intitulada Hora de Clarice. Ao lado de outras várias instituições, o IMS também prestou sua homenagem na ocasião. Wisnik é ensaísta, professor de literatura brasileira na USP e compositor e falou no IMS sobre importantes obras da escritora, como Laços de famíliaA legião estrangeira e A hora da estrela.

Encarnação Involuntária – Clarice Lispector

Tem muita gente por ai que copia e cola frases de Clarice Lispector no facebook, no msn e afins, mas essas pessoas podem nunca ter lido . Eis aqui uma oportunidade boa, um texto que eu considero lição de vida pra quem precisa se entender melhor e o melhor ainda, entender o outro – pelo menos dentro de um limite.

O texto a seguir é de Clarice Lispector e se chama Encarnação Involuntária:

“Às vezes, quando vejo uma pessoa que nunca vi, e tenho tempo para observá-la, eu me encarno nela e assim dou um grande passo para conhecê-la. E essa intrusão numa pessoa, qualquer que seja ela, nunca termina pela sua própria auto-acusação: ao nela me encarnar, compreendo-lhe os motivos e perdôo. Preciso é prestar atenção para não me encarnar numa vida perigosa e atraente, e que por isso mesmo eu não queira o retorno a mim mesmo.

Um dia no avião…ah, meu Deus – implorei – isso não, não quero ser essa missionária!
Mas era inútil. Eu sabia que, por causa de três horas de sua presença, eu por vários dias seria missionária. A magreza e a delicadeza extremamente polida da missionária já haviam me tomado. É com curiosidade, algum deslumbramento e cansaço prévio que sucumbo à vida que vou experimentar por uns dias viver. E com alguma apreensão, do ponto de vista prático: ando agora muito ocupada demais com os meus deveres e prazeres para poder arcar com o peso dessa vida que não conheço – mas cuja tensão evangelical já começo a sentir. No avião mesmo percebo que já comecei a andar com esse passo de santa leiga: então compreendo como a missionária é paciente, como se apaga com esse passo que mal quer tocar o chão, como se pisar mais forte viesse prejudicar os outros. Agora sou pálida, sem nenhuma pintura nos lábios, tenho o rosto fino e uso aquela espécie de chapéu de missionária.
Quando eu saltar em terra provavelmente já terei esse ar de sofrimento-superado-pela-paz-de-se-ter-uma-missão. E no meu rosto estará impressa a doçura da esperança moral. Porque sobretudo me tornei toda moral. No entanto quando entrei no avião estava tão sadiamente amoral. Estava, não, estou! Grito-me eu em revolta contra os preconceitos da missionária. Inútil: toda a minha força está sendo usada para conseguir ser frágil. Finjo ler uma revista, enquanto ela lê a Bíblia.
Vamos ter uma descida curta em terra. O aeromoço distribui chicletes. Ela cora mal o rapaz se aproxima.
Em terra sou uma missionária ao vento do aeroporto, seguro minhas imaginárias saias longas e cinzas contra o despudor do vento. Entendo, entendo. Entendo-a, ah, como a entendo e ao seu pudor de existir quando está fora das horas em que cumpre sua missão. Acuso, como a missionariazinha, as saias curtas das mulheres, tentação para os homens. E, quando não entendo, é com o mesmo fanatismo depudorado dessa mulher pálida que facilmente cora à aproximação do rapaz que nos avisa que devemos prosseguir viagem.
Já sei que só daí a dias conseguirei recomeçar enfim integralmente a minha própria vida. Que, quem sabe, talvez nunca tenha sido própria, se não no momento de nascer, e o resto tenha sido encarnações. Mas não: eu sou uma pessoa. E quando o fantasma de mim mesma me toma – então é um tal encontro de alegria, uma tal festa, que a modo de dizer choramos uma no ombro da outra. Depois enxugamos as lágrimas felizes, meu fantasma se incorpora plenamente em mim, e saímos com alguma altivez por esse mundo afora.
Uma vez, também em viagem, encontrei uma prostituta perfumadíssima que fumava entrefechando os olhos e estes ao mesmo tempo olhavam fixamente um homem que já estava ficando hipnotizado. Passei imediatamente, para melhor compreender, a fumar de olhos entrefechados para o único homem ao alcance da minha visão intencionada. Mas o homem gordo que eu olhara para experimentar e ter a alma da prostituta, o gordo estava mergulhado no New York Times. E meu perfume era discreto demais.
Falhou tudo.” (Clarice Lispector)

Entender nem sempre é fácil… Mas dá pra continuar vivendo

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

Clarice Lispector

Simplicidade

Clarice Lispector

“Que ninguém se engane: só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.” (Atribuido à Clarice Lispector)

Clarice Lispector in Movie


Benjamin Moser

A idéia está se desenrolando lá fora, nos Estados Unidos, mais precisamente. A vida de Clarice Lispector vai virar filme. Após 5 anos o pesquisador americano Benjamin Moser concluiu uma biografia completa sobre uma das autoras mais emblemáticas da Literatura Brasileira.

Aconteceu que no Brasil foi divulgado por grande empresa de comunicação que a atriz Meryl Streep havia sido convidada para interpretar a escritora, o que acabou sendo desmentido pelo próprio autor do livro no seu twitter @BenjaminFMoser.

Bejamin Moser - Twitter - EuGordinhaSeria muito legal se Meryl tivesse aceito o papel… Vamos ver no que dá!